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A água fresca que bebemos (e agora também negociamos)

A água é agora transacionada na bolsa de Nova Iorque. A ONU está preocupada e vê riscos para o nosso bem mais essencial. O que há a temer?

Há dias, ficámos a saber que a água passou a ser negociada como commodity em contratos futuros na bolsa de Nova Iorque. Significa que o recurso natural mais essencial à vida é agora transacionado da mesma forma que o petróleo, o ouro, o cacau, a soja e até o sumo de laranja. Wall Street meteu água, ainda que não literalmente.

O lançamento dos contratos futuros de água foi protagonizado pelo Grupo CME, especializado neste tipo de instrumentos financeiros, que também surpreendeu o mundo em 2017 por lançar os primeiros futuros da bitcoin. Este parágrafo da Lusa, publicado pelo ECO, resume bem o que está em causa:

“Agricultores, hedge funds (fundos especulativos) e municípios poderão apostar contra ou a favor da escassez de água a partir desta segunda-feira [7 de dezembro de 2020], já que o Grupo CME lançou contratos futuros ligados à indústria de cerca de 1,1 mil milhões de dólares (cerca de 906 milhões de euros) do mercado de água da Califórnia, nos Estados Unidos.”

Lusa/ECO

Sendo uma matéria de alta sensibilidade, não foi preciso esperar muito até surgirem as primeiras reações. Um dos alertas partiu da Organização das Nações Unidas (ONU), que considera que este novo produto financeiro torna vulnerável a uma “bolha especulativa” um recurso tão essencial como a água.

Citado pela Bloomberg, Pedro Arrojo-Agudo, responsável da ONU para esta área, fala mesmo num risco de aumento significativo dos preços de uma substância que “pertence a todos”:

“A notícia de que a água vai ser transacionada nos mercados de futuros de Wall Street mostra que o valor da água, enquanto direito humano fundamental, está agora sob ameaça.”

Pedro Arrojo-Agudo, ONU

As dinâmicas da oferta e da procura sumarizam a questão. Quanto mais escasso é um recurso, e à medida que aumenta a procura pelo mesmo, sobe também o preço do referido bem.

No caso concreto da água, a procura sempre existiu e deverá continuar a existir. É natural, tratando-se de um bem que apelidamos de “essencial”. Mas a oferta, como se sabe, é cada vez menor.

Estima-se que apenas 3,5% da água existente na Terra seja água doce e que apenas 1% esteja facilmente acessível. Entende agora onde a ONU quer chegar?

Porém, a preocupação não é só da ONU. Diria que uma boa “fatia” da população tenderá a olhar para esta novidade com alguma desconfiança. Medo, até. Um vídeo satírico publicado no Reddit ajuda a compreender os receios:

Talvez valha a pena ficar atento à evolução dos preços dos futuros da água, como muitos já fazem com os câmbios das moedas. Se assim pretender, procure por “NQH2O”, ou Nasdaq Veles California Water Index. Mas não espere muita simplicidade.

O índice está cotado em $/AF, que significa dollars per acre foot, em que 1 AF (acre foot) equivale ao volume de água necessário para encher um acre de terreno (0,404686 hectares) a uma profundidade de 1 pé (30,48 centímetros).

E por falar neste assunto, houve um artigo na revista The Economist que me despertou particular interesse esta semana. O problema do chumbo na água levou-me a partilhar algumas notas nas redes sociais:

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