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Estamos prontos para o regresso?

A pandemia deixou vidas em suspenso. Isolámo-nos no confinamento para travar a ameaça da Covid-19. Agora, com uma vacina à vista, estaremos preparados para o regresso?

Com o fim do ano a aproximar-se, é difícil não sentir que 2020 nos roubou meses de vida. Um novo coronavírus, com origem na China, assolou o planeta e atirou o mundo para uma crise económica sem precedentes. Falhou a oferta e falhou a procura.

Pouco a pouco, os países fecharam fronteiras e fecharam-se sobre si mesmos. Trabalhadores perderam os empregos, famílias ficaram sem sustento e muitas empresas foram deixadas num estado de paralisia, à espera de uma retoma que tarda em chegar.

Mas há motivos para ter esperança. A ciência, menina dos olhos de ouro da Humanidade, assumiu a missão de procurar uma solução para a ameaça do novo coronavírus. Em poucos meses, fez o que demora anos: desenvolveu, testou e pediu aprovação para uma vacina contra a Covid-19.

Se tudo correr como planeado, as primeiras doses chegarão em dezembro — ou, talvez mais realista, durante o primeiro trimestre de 2021. Aos poucos, espera-se que comecemos a desconfinar. Se a vacina for eficaz, e a população a aceitar, restrições serão levantadas e medidas serão, aos poucos, aliviadas.

Estaremos, mentalmente e fisicamente, preparados para essa fase? À primeira vista, parece uma dúvida tonta. Claro que estamos preparados!, dá vontade de responder. Mas a questão é legítima.

Muitas das transformações provocadas pela pandemia vieram para ficar. Espera-se — e eu também espero — que o trabalho se mantenha mais descentralizado. O comércio eletrónico recebeu um valente empurrão, e milhares de portugueses, que nunca tinham arriscado comprar online, optaram por o fazer.

Atrasadas na digitalização, centenas de marcas, e até parte da Administração Pública, tiveram de se render à internet. A economia de algumas regiões do país continua sob pressão para se diversificar, o que, apesar das dores de crescimento, não é necessariamente mau.

Sim, as nossas vidas esperam-nos, mas o mundo que vamos encontrar vai ser diferente daquele que conhecíamos em março. Quando chegar a hora, estaremos prontos para as assumir de volta?

Depois da fadiga do confinamento, teremos de nos adaptar de novo. Em março e abril, aprendemos a confinar. Durante semanas, nós, os mais felizardos, pouco tivemos de sair de casa. O futuro não se fará de isolamento, mas de hiperconectividade.

Na esmagadora maioria dos casos, o trabalho deverá evoluir de uma lógica remota para um modelo híbrido, com dias de laboração à distância e visitas pontuais ao escritório. A previsão não é minha. Tem sido amplamente antecipada por especialistas na comunicação social.

Voltaremos, por isso, a ser submetidos a um choque físico e psicológico. Choque esse que teremos de incorporar e aguentar.

Aqueles que pouco ou nada socializaram na pandemia, quer ao nível pessoal quer ao nível profissional, terão de retomar as relações interpessoais. Músculos atrofiados voltarão a ser requisitados pela alta pressão do quotidiano.

Anteveem-se, por isso, duros meses de reaprendizagem. Mas é um processo necessário, que teremos capacidade para superar. Ansiamos todos estar novamente juntos. Sentimos falta de confraternizar, do falar e do toque.

Somos seres sociais, com os tanques do convívio à espera para encher.

Memórias de um confinamento

Concluo esta reflexão, partilhando um pouco da minha própria experiência. Em janeiro de 2020, falei pela primeira vez com a família de um novo coronavírus que tinha sido descoberto na China, e começava, nessa altura, a preocupar várias partes do mundo. Nessas primeiras conversas, antecipei a corrida às máscaras, que acabaria por se verificar poucas semanas depois.

De nada valeu, pois não agi. Durante os primeiros meses da pandemia, nem sequer usei máscara. A primeira que tive, estávamos já em abril, no final da primeira vaga da Covid-19.

Enquanto escrevo estas linhas, a pandemia continua a alastrar-se rapidamente no ocidente e desconhece-se ao certo a dimensão da crise sanitária nos países subdesenvolvidos. Em Portugal, números redondos, são descobertos cerca de 5.000 novos casos por dia e perto de 70 pessoas morrem vítimas da infeção a cada 24 horas.

O país acabou de renovar o estado de emergência, como proposto pelo Presidente da República, prevendo-se medidas como o recolhimento obrigatório à noite e a partir das 13h00 aos fins de semana e feriados, em boa parte do território.

Agora, em plena segunda vaga, há vários momentos passados de que me recordo bem. O mais irónico de todos foi em meados de fevereiro, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) oficializou o nome da doença provocada pelo SARS-Cov-2, que é o verdadeiro nome desta besta. Chamaram-lhe Covid-19, de coronavirus disease 2019.

Lembro-me de que, quando me deparei com o nome pela primeira vez, instantaneamente ri. Julguei que Covid-19, que mais parece um nickname para ser usado num qualquer chat da internet, nunca “pegaria” como o nome comum da doença. Como hoje se sabe, estava redondamente enganado.

Uma outra memória está relacionada com a massificação do uso de máscara. Antes da chegada do surto a Portugal, era incomum ver pessoas de máscara nas ruas de Lisboa. Mas não era raro. A máscara já era um aspeto comum em algumas culturas, como a asiática.

Contudo, aos poucos, no início de março, começaram a surgir as primeiras pessoas de máscara de proteção nas ruas e nos transportes públicos. Para mim, foi quase um choque. Não pela máscara em si, mas porque, a partir desse momento, tornaram-se ubíquos os sinais de que algo de errado se passava com o nosso mundo. Pairava, até, uma certa sensação de insegurança no ar.

Admito que a história, a longo prazo, se esqueça deste pormenor, mas é importante recordar que o uso de máscara era desaconselhado pelas autoridades de saúde no início da pandemia. Falava-se de que poderia conferir uma “falsa sensação de segurança”, e de que era necessário poupar estes equipamentos de proteção, de forma a haver em suficiente número para os profissionais do setor da Saúde. Recordo-me de seguir estas indicações à risca.

No hipermercado, já com boa parte das pessoas de máscara ou viseira, lá estava eu, a nadar contra a maré, sem máscara nem frasco de álcool-gel no bolso.

Outros pormenores da vida profissional e profissional tenho guardados na memória. Lembro-me de pressionar para a adoção do teletrabalho dias antes da entrada em vigor do primeiro confinamento obrigatório. Lembro-me do falso decreto Presidencial que circulou em grupos do WhatsApp, e de conseguir obter o verdadeiro, junto de várias fontes, que até nem era muito diferente do anterior (creio que nunca chegou a ser explicado o como e o porquê).

Contas feitas, passei bem mais de um mês fechado em casa, a trabalhar remotamente e saindo apenas para idas às compras ou à farmácia.

Esse período também exigiu severa adaptação, quer na relação pessoal com quem passa 24 horas do dia connosco, quer na forma de trabalhar — quando a nossa sala se transforma em escritório permanente, passam a conviver duas realidades que não se devem misturar. Todo o convívio passou a realizar-se à distância, exigindo a descoberta de âncoras que nos prendam ao chão e nos ajudem a manter a sanidade mental.

Todos nós teremos as nossas memórias do confinamento e da pandemia. Se lá chegarmos, quando formos velhinhos, iremos recordar os meses que passámos longe uns dos outros. Tempos em que era crime ir a festas e em que uma simples ida às compras podia pôr em risco as nossas vidas.

Para os mais felizardos, que puderam ficar em casa a trabalhar, bastou ficar em casa para “achatar a curva” da epidemia. Uma exigência bem mais confortável do que as guerras e outros flagelos dos tempos dos nossos pais e avós.

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